Sociologia da Comunicação

Docente: Rita Marquilhas

quinta-feira, 19 de abril de 2012

14.ª aula - A teorização sociológica de Pierre Bourdieu



Poder simbólico e violência simbólica: o caso do desporto de alta competição




Ver a cena do filme Momentos de Glória (1981), em que o reitor de Cambridge lamenta o facto de Harold Abrahams ter um treinador pessoal, atitude julgada imprória para um gentleman nos anos de 1920. No video supra está a cena dos corrida de 100 metros de Abrahams nos Jogos Olímpicos de Paris de 1924.



Fontes
Priscila Gomes de Azevedo 2008. Pierre Bourdieu e Charles Taylor: a construção social da pessoa. In: Virtú, Revista electrônica do ICH da UFJF, 7 .
Webb, Jen, Tony Schirato, and Geoff Danaher. 2002. Understanding Bourdieu. London  & Thousand Oaks Calif.: SAGE Publications.

Leituras complementares:

Bourdieu, Pierre. 2011. O poder simbólico. Ed. Diogo Ramada Curto, Nuno Domingos e Miguel Bandeira Jerónimo. 2ª ed. Lisboa: Edições 70.
________ 2004. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva.
________ 2004. The peasant and his body. In: Ehnography, Vol. 5, No. 4, 579-599.
________ 2002. La distinción: criterios y bases sociales del gusto. México: Taurus.
________2000. Esquisse d’une théorie de la pratique. Précédé de trois études d’ethnologie kabyle. Paris: Seuil.
________ 1999. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
________ 1997. A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes.
________ 1996/1. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das letras.
________1996. Razões Práticas. 8ª ed. São Paulo: Papirus.
________ 1980. Le sens pratique. Paris: Minuit.
________ 1962. Célibat et condition paysanne. In: Études Rurales, (5-6) 32-135.
A “filosofia da ação” ou “disposicional” 
de Pierre Bourdieu
Ideia nuclear – há uma relação dupla entre estruturas objetivas (campos sociais) e estruturas incorporadas (habitus): a identidade dos indivíduos enquanto agentes passa por eles serem cúmplices do seu mundo social.
A análise dos comportamentos sociais (práticas) é a análise do passado incorporado nos agentes; estes são guiados por um conjunto de disposições adquiridas da estrutura objetiva e incorporadas desde a primeira infância (habitus): são disposições que funcionam como princípios de visão e de divisão do mundo social.
Os agentes constroem o mundo social através de estruturas cognitivas historicamente constituídas. O sociólogo deve traçar-lhes a génese.
Captar a cumplicidade ontológica entre o habitus e o campo, ou seja, a relação dupla entre as estruturas incorporadas e as estruturas objetivas, é captar o fundamento da prática dos agentes, a lógica mais profunda do mundo social.
Habitus
O habitus é definido, em analogia com a gramática generativa de Noam Chomsky, como o sistema dos esquemas interiorizados que permite engendrar todos os pensamentos, as perceções, as ações, as preferências, os gostos, as capacidades ativas, inventivas, criadoras dos agentes.
Esse habitus funciona como uma espécie de lei tácita (nomos) da perceção e da prática que fundamenta o consenso sobre o sentido do mundo social: guia a percepão das situações e a adoção de uma resposta adequada a elas.
A filosofia disposicional consiste em dizer que a maior parte das ações humanas tem por base algo diferente da intenção. Trata-se de disposições adquiridas que fazem com que a ação possa e deva ser interpretada como orientada em direcão a determinado fim sem que se possa, entretanto, dizer que ela tinha por princípio a busca consciente desse fim, desse objetivo.
Outros conceitos
Bourdieu desenvolve um modelo analítico ancorado nas noções de espaço social e espaço simbólico (ambas sustentadas pelas noções de habitus, capital e campo); o modelo é útil na interpretação de diversos contextos sociais.
Compreender o espaço social e o espaço simbólico é um desafio que pressupõe compreender a complexa relação entre as estruturas objetivas (dos campos sociais) e as construções subjetivas (estruturas incorporadas – habitus) e apanhar o invariante, a estrutura, na variante observada.
Espaço social
Bourdieu (2002: 99-111) deixa claro que não se trata de posições sociais, no sentido marxista de classe. A construção do espaço social possibilita, destaca Bourdieu, recortar classes no sentido teórico, isto é, “classes no papel”, as quais se referem a um conjunto de agentes que ocupam posições semelhantes e que, colocados em condições semelhantes e sujeitos a condicionamentos semelhantes, têm, com toda probabilidade, atitudes e interesses semelhantes.
As classes que se podem produzir recortando as regiões do espaço social agrupam agentes homogéneos do ponto de vista das suas práticas culturais, do consumo, das suas opiniões políticas etc.
Distinção
A cada classe de posições corresponde uma classe de habitus (ou de “gosto”), ou seja, um conjunto de princípios de visão e de divisão geradores e classificatórios de práticas distintas e distintivas (Bourdieu, 2002: 169/170).
O ponto essencial para Bourdieu é que as diferenças nas práticas, ao serem percebidas por meio desses princípios de visão e de divisão, se tornam diferenças simbólicas.
As distinções são transfigurações simbólicas das diferenças reais. Assim, o espaço social poderia ser concebido como “espaço dos estilos de vida”, cujos princípios de organização transformam práticas e, sobretudo, “maneiras” em “signos distintivos” (Bourdieu, 2006: 144).
Campos
Bourdieu atribui a noção de espaço social à lógica de funcionamento dos campos, isto é, universos com leis próprias, autónomos. O autor concebe a ideia de “espaço social global”: o espaço social visto ao mesmo tempo como um campo de forças, cuja necessidade se impõe aos agentes que nele se encontram envolvidos, e como um campo de lutas, no interior do qual os agentes se enfrentam, com meios e fins diferenciados (conforme a sua posição na estrutura do campo de forças).
Cada campo possui princípios e critérios (um nomos) independentes e irredutíveis aos dos de outros campos e que são o lugar de formas específicas de interesse. São interesses que, do ponto de vista de outros campos, podem parecer desinteressantes, ou, até mesmo, como observa Bourdieu, “absurdos, irrealistas, loucos” (Bourdieu 2006:149).
Illusio
É na relação entre o habitus e o campo que se engendra o que é o fundamento de todo e qualquer interesse: a illusio, ou seja, o reconhecimento do jogo e da utilidade do jogo, fornece a base para todas as atribuições de sentido e de valor particulares. “O que é vivido como evidência na illusio parece ilusório para quem não participa dessa evidência” (2006:142).
Cada campo produz sua forma específica de illusio, que consiste numa espécie de relação de encantamento, um jogo, fruto da cumplicidade ontológica entre as estruturas subjetivas e as estruturas objetivas. Quando as estruturas incorporadas e as estruturas objetivas estão de acordo, quando a perceção é constituída de acordo com as estruturas do que é percebido, tudo parece evidente, tudo parece natural. Segundo Bourdieu, todo os campos sociais (religioso, artístico, científico, económico, familiar etc.) têm as suas relações pautadas na illusio. “Ela é tanto a condição, como o produto do funcionamento de qualquer campo” (1996/1: 258/259).
Valores simbólicos
Para compreender como essa illusio funciona, é preciso, segundo indicação de Bourdieu, lançar mão de tudo o que diz respeito ao “simbólico” (capital simbólico, poder simbólico, violência simbólica, lucro simbólico, interesse simbólico etc.). 
Capital simbólico
O capital simbólico é um capital com base cognitiva, apoiado sobre o conhecimento e o reconhecimento. É uma propriedade qualquer (força física, valor guerreiro, capital económico, cultural, escolar ou social) valorizada pelas categorias de perceção e de avaliação dos agentes que a reconhecem. Percebida como tal, essa propriedade torna-se simbolicamente eficiente, como uma força mágica: uma propriedade que, ao responder às expetativas coletivas, socialmente constituídas, em relação às crenças, exerce uma espécie de ação à distância, sem contacto físico.
Poder simbólico e violência simbólica
São estruturas cognitivas que devem parte da sua consistência e da sua resistência ao facto de serem, pelo menos aparentemente, sistemáticas e coerentes, objetivamente em consonância com as estruturas objetivas do mundo social. A isso, Bourdieu chama poder simbólico: poder capaz de transformar a visão do mundo e, consequentemente, a acão sobre o mundo.
O poder simbólico pode gerar violência simbólica: violência exercida sobre o agente com a sua cumplicidade. Os agentes são submetidos a formas de violência (tratados como inferiores, privados de recursos, limitados na mobilidade social e nas suas aspirações), mas sem se aperceberem disso. A sua situação parece-lhes estar “na ordem natural das coisas”.
Razão
Bourdieu diz que os agentes não fazem coisas sem sentido; porém, isso não significa que eles sejam racionais. Os agentes podem conduzir-se de tal maneira que, numa avaliação racional das probabilidades de sucesso, pareça que tinham razão em fazer o que fizeram sem que o cálculo racional tenha sido o princípio de suas escolhas.
Interesses
Para Bourdieu, os jogos sociais têm alvos e esses alvos suscitam interesses.
Interesse para Bourdieu é “estar em”, participar, admitir que o jogo merece ser jogado; é reconhecer o jogo e reconhecer os alvos. Como visto anteriormente, cada campo produz sua forma específica de illusio, que, por sua vez, só é reconhecida por aqueles que possuem um habitus predisposto para isso.
Exatamente por ser fruto da cumplicidade ontológica entre o habitus e as estruturas objetivas do campo, a illusio impede que os jogos sociais sejam reconhecidos como jogos, ou seja, que os alvos sejam claros para qualquer um.
Sentido prático e sentido reflexivo
Os agentes adquirem conhecimento do campo e conseguem negociar dentro dele em função do seu sentido prático e do seu sentido reflexivo.
Sentido prático: capacidade de compreender e de negociar dentro do campo por se ter o sentido da sua história. Envolve conhecimento de regras escritas e tácitas, de géneros, discursos, formas de capital; assim se percebe o que está a acontecer e se tomam decisões estratégicas sobre ele.
Sentido reflexivo: exploração sistemática das crenças do campo que delimitem e determinem subrepticiamente o que nele se pode pensar. A dúvida radical é necessária ao exercício da atividade reflexiva, bem como o estudo do enquadramento histórico e a aposta num imperativo ético.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário